A partilha de imóvel em inventário pode se tornar um problema quando os herdeiros não chegam a um acordo. Um quer vender, outro pretende morar no imóvel e um terceiro não responde ou discorda das propostas. Enquanto a situação permanece indefinida, despesas como IPTU, condomínio e manutenção continuam existindo.
Apesar do impasse, há caminhos jurídicos para organizar o patrimônio. Além das soluções já previstas na legislação, uma decisão recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu a possibilidade de partilha amigável com quinhões desiguais quando os herdeiros são maiores, capazes e manifestam livremente a sua vontade.
Por que o imóvel herdado fica travado no inventário?
Com o falecimento, a herança é transmitida aos herdeiros como um conjunto unitário e indivisível. Até a conclusão da partilha, aplicam-se ao acervo hereditário as regras do condomínio, conforme o artigo 1.791 do Código Civil. Isso não significa que cada herdeiro já seja proprietário de uma parte específica de cada imóvel.
O espólio é administrado pelo inventariante, e atos de disposição de bens dependem da observância das formalidades legais. A venda de um imóvel do espólio antes da partilha pode ocorrer em situações específicas, normalmente com atuação do inventariante, manifestação dos interessados e autorização judicial.
Na prática, divergências sobre preço, uso do imóvel, pagamento das despesas ou destino do patrimônio podem prolongar o inventário. A ausência de um herdeiro, a existência de pessoa incapaz, um testamento, dívidas ou problemas na matrícula também podem exigir providências adicionais.
Por isso, a solução depende de identificar se há possibilidade de acordo e se o imóvel pode ser atribuído a um herdeiro, vendido durante o inventário ou mantido em copropriedade após a partilha.
O que mudou com a decisão do STJ sobre partilha desigual?
Em julho de 2026, a Terceira Turma do STJ decidiu, no REsp 2.225.451, que a divisão desigual dos quinhões hereditários pode ser admitida em uma partilha amigável. Segundo o tribunal, a desigualdade, por si só, não impede a homologação do acordo.
A decisão considerou uma situação em que havia herdeiros maiores e capazes, consenso e cessão de direitos hereditários. Nessas condições, cabe ao juiz verificar a regularidade do acordo e se a vontade foi manifestada livremente, sem impor igualdade matemática absoluta entre os quinhões.
O entendimento não significa que qualquer divisão desigual será automaticamente aceita. É necessário observar a capacidade das partes, a forma legal da cessão, a inexistência de vícios de consentimento e eventual prejuízo a terceiros. O tratamento tributário também deve ser analisado separadamente.
Para conhecer os fundamentos e os limites do julgamento, consulte a notícia oficial do STJ sobre a partilha desigual.
Quais são as formas de resolver a partilha de imóvel em inventário?
A melhor solução depende da composição do patrimônio, da situação do imóvel e da vontade dos interessados. Entre os caminhos que podem ser avaliados estão:
- atribuição do imóvel a um herdeiro: um dos sucessores recebe o bem e os demais são compensados com dinheiro ou outros bens, conforme a estrutura jurídica e tributária do acordo;
- distribuição de bens diferentes: quando existem outros ativos no espólio, os herdeiros podem organizar a partilha considerando a natureza e o valor de cada bem;
- venda durante o inventário: em determinadas circunstâncias, o imóvel pode ser vendido pelo espólio mediante o procedimento e as autorizações aplicáveis, com posterior destinação do valor;
- manutenção da copropriedade: os herdeiros podem receber frações do imóvel e continuar como condôminos depois da partilha, embora isso exija regras claras sobre uso, despesas e eventual venda futura;
- medidas judiciais diante do conflito: quando não há consenso, o inventário pode prosseguir judicialmente e outras medidas podem ser necessárias para definir o destino do bem.
Há situações que exigem cautela especial. O direito real de habitação do cônjuge ou companheiro sobrevivente, por exemplo, pode limitar a possibilidade de venda ou de extinção do condomínio. Também é necessário verificar se existem herdeiros incapazes, testamento, dívidas do espólio ou restrições registradas na matrícula.
Quais são os cuidados tributários na partilha desigual?
A divisão desigual precisa ser estruturada com atenção. Quando um herdeiro recebe valor superior ao seu quinhão sem uma contraprestação correspondente, a transferência gratuita pode ser equiparada a uma doação e gerar incidência tributária sobre a diferença, conforme a legislação aplicável.
No julgamento de 2026, o STJ ressaltou que uma eventual tributação decorrente da cessão gratuita de direitos hereditários deve ser examinada pelo Fisco. A questão tributária não impede, por si só, a homologação judicial do acordo, mas continua produzindo consequências que precisam ser calculadas antes da assinatura.
Também devem ser avaliados o ITCMD, os custos cartorários, possíveis tributos relacionados à cessão onerosa e os efeitos da futura venda do imóvel. A incidência concreta varia conforme a operação, os valores envolvidos e a legislação estadual ou municipal.
Atenção: não basta registrar informalmente que um herdeiro ficará com uma parte maior. O instrumento deve descrever a origem dos direitos, as compensações, os valores e a forma da transferência.
Quais são as vantagens de concluir e registrar a partilha?
A conclusão do inventário permite definir formalmente a titularidade do patrimônio. No caso de imóveis, o formal de partilha, a escritura ou a carta de adjudicação deve ser levado ao Cartório de Registro de Imóveis para atualizar a matrícula e produzir os efeitos registrais necessários.
A regularização pode facilitar:
- a identificação dos proprietários na matrícula;
- a venda ou a utilização do imóvel em uma operação futura;
- a análise documental por compradores e instituições financeiras;
- a organização das responsabilidades por IPTU, condomínio e manutenção;
- a prevenção de novos conflitos entre os sucessores.
Mesmo depois da partilha, o imóvel pode continuar pertencendo a mais de uma pessoa. Nesse caso, os herdeiros permanecem coproprietários e deverão observar as regras do condomínio. Se a convivência se tornar inviável, pode ser necessário avaliar uma ação de divisão ou de extinção do condomínio, conforme as características do bem e os direitos envolvidos.
Quais documentos são importantes para avaliar a partilha?
A documentação exata depende do caso, mas a análise geralmente começa com:
- certidão de óbito;
- documentos pessoais e certidões de estado civil dos herdeiros;
- testamento, se houver;
- petições, decisões e demais documentos do inventário já iniciado;
- matrícula atualizada e certidão de ônus do imóvel;
- documentos municipais e comprovantes relacionados ao IPTU;
- avaliação ou estimativa atual do valor do imóvel;
- comprovantes de despesas de condomínio, manutenção e reformas;
- informações sobre dívidas do espólio e propostas de acordo já discutidas.
A reunião desses documentos ajuda a identificar pendências, estimar custos e comparar as alternativas. Para conhecer a atuação do escritório e outras formas de regularização patrimonial, acesse o site da Barboza & Kelly Assessoria Jurídica.
Perguntas frequentes sobre partilha de imóvel em inventário
Todos os herdeiros precisam concordar com uma partilha desigual?
Para uma partilha amigável com divisão desigual, o consenso é essencial. O precedente do STJ tratou de herdeiros maiores e capazes que celebraram acordo com cessão de direitos hereditários. Se houver incapaz, ausência de concordância ou outra particularidade, o procedimento e o controle judicial serão diferentes.
Um herdeiro pode ficar com o imóvel e compensar os demais?
Essa possibilidade pode ser estruturada quando existe acordo, mas os valores, a forma da compensação, a cessão de direitos e os tributos precisam ser examinados. A solução deve constar adequadamente do inventário e dos documentos que serão levados a registro.
É possível vender o imóvel antes de terminar o inventário?
Em determinadas situações, sim. A alienação de um bem do espólio costuma exigir atuação do inventariante e autorização judicial, além da observância dos interesses dos herdeiros, credores e demais envolvidos. A viabilidade deve ser analisada no processo concreto.
O que acontece quando um herdeiro não é localizado?
A falta de localização não deve ser tratada como concordância. Pode ser necessário realizar buscas, citações e outras medidas processuais para assegurar a participação ou a representação adequada do interessado.
A decisão do STJ elimina a cobrança de impostos?
Não. O STJ afirmou que a questão tributária não impede automaticamente a homologação do acordo, mas eventual cessão gratuita pode gerar tributação. A operação deve ser avaliada antes da formalização.
Como buscar uma solução para o imóvel herdado?
O primeiro passo é examinar o inventário, a matrícula, a composição do patrimônio e a posição de cada herdeiro. A partir desse diagnóstico, é possível avaliar se o caso comporta acordo, cessão de direitos, compensação, venda autorizada ou outra medida judicial.
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a análise jurídica individual. As soluções e consequências tributárias dependem dos fatos, dos documentos e da legislação aplicável a cada caso.


